O Natal em Giotto: encontros que movimentam o mundo
Chegou o Natal e achei que seria bonito atravessar esse momento a partir de uma obra de arte, usando a imagem como ponto de partida para pensar a data com mais calma e curiosidade. Durante muito tempo, o Natal foi para mim uma época difícil de habitar, mas foi na arte — nesse exercício de olhar, interpretar e permitir que as imagens nos toquem — que encontrei um caminho possível para me aproximar desse tempo. É nesse espírito que trago A Adoração dos Magos, afresco pintado por Giotto di Bondone no início do século XIV, na Capela Scrovegni, em Pádua, onde o nascimento de Cristo não aparece como espetáculo, mas como encontro, travessia e presença compartilhada.
Giotto inaugura algo que muda a história da arte: a vida entra em cena. Giorgio Vasari dizia que ele devolveu o “ar de vida” às figuras antes rígidas da pintura medieval. Aqui, nada está totalmente estático — e isso expressa uma concepção filosófica essencial: a verdade não está parada, ela se revela no movimento. A estrela que brilha acima dos Magos não é mero enfeite celestial, mas um símbolo de orientação, quase uma coreografia do sentido. No pensamento medieval, estudado por autores como Ernst Cassirer, os astros eram referências que estruturavam o mundo; seguir uma estrela é admitir que o significado se constrói enquanto caminhamos.
Talvez por isso os Magos, representantes de saberes e territórios diversos, estejam sempre em deslocamento. Michel de Certeau diria que o conhecimento é prática de travessia — e aqui, a fé também é. Aproximar-se do sagrado significa sair do próprio lugar, abrir-se ao desencontro produtivo com o outro.
Os presentes — ouro, incenso e mirra — traduzem esse encontro com o real: riqueza, espiritualidade e mortalidade convivem na mesma cena. Giotto rejeita aquela separação rígida entre matéria e transcendência. Como lembra Hans-Georg Gadamer, o símbolo une mundos, e aqui o Natal aparece como experiência humana inteira, onde corpo e mistério coexistem sem conflito.
Maria ocupa o centro do afresco sem nenhuma herança de realeza distante. Seu gesto é cotidiano, quase íntimo: ela acolhe e observa. O sagrado, portanto, não brilha porque está acima do mundo, mas porque se encarna no gesto simples, no cuidado, no vínculo. O menino, igualmente, não é ideia abstrata — é corpo que toca, olha e transforma a relação entre as pessoas.
Por isso, A Adoração dos Magos é menos uma cena isolada e mais um acontecimento comunitário, tecido pela reciprocidade. Não há grandiosidade teatral, mas uma alegria silenciosa, compartilhada — exatamente aquela que Hannah Arendt conecta ao nascimento: o ato de vir ao mundo abre sempre a possibilidade de um novo começo.
Talvez Giotto esteja nos dizendo que o Natal não é a promessa de uma vida perfeita, mas a lembrança de que a vida continua surgindo, apesar de tudo, justamente quando alguém chega, quando alguém encontra alguém, quando alguém é reconhecido na sua humanidade.
Que esse Natal possa ser vivido assim: com mais encontros do que expectativas, mais caminhos do que certezas e mais alegria do que cansaço.
Que haja movimento, cuidado e presença, como no afresco de Giotto — e que a arte siga acendendo luzes dentro da gente.
✨ Feliz Natal!
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