A Filha do Dr. Moreau - Resenha

by - dezembro 21, 2025

Ler A Filha do Dr. Moreau, de Silvia Moreno-Garcia - a gênia por trás do maravilhoso Gótico Mexicanoé entrar num território em que o horror não está apenas nos corpos transformados, mas principalmente nas estruturas que tornam essas transformações possíveis. O livro vai se abrindo como uma pergunta filosófica incômoda: quem decide o que é humano? E, mais ainda, quem ganha poder ao definir quem não é?

Silvia desloca a história de H. G. Wells para o México do século XIX, em plena Guerra das Castas, revolta dos maias de Yucatán, iniciada em 1847, contra a dominação e exploração das elites brancas e mestiças. A narrativa deixa de ser apenas uma fábula sobre os limites da ciência e se transforma numa reflexão radical sobre colonialismo como sistema epistemológico, ou seja, como um conjunto de regras e poderes que define o que conta como conhecimento e quem tem autoridade para produzi-lo. A hacienda onde vive a família Moreau funciona como aquilo que Achille Mbembe, filósofo e historiador camaronês, chamaria, mais tarde, de um espaço necropolítico: um território onde certas vidas são protegidas, enquanto outras são consideradas disponíveis para a dor, o experimento e a morte.

O Dr. Moreau é a personificação do sujeito moderno iluminista levado ao extremo. Ele acredita na razão como autoridade absoluta, na ciência como verdade incontestável e em si mesmo como agente legítimo do progresso. Não há dúvida moral em seus atos porque, dentro da lógica colonial, ele ocupa o lugar de quem sabe. Seus experimentos não são apenas científicos; são atos de soberania (no sentido foucaultiano  mesmo:: ele decide quais corpos podem ser transformados, corrigidos, punidos ou descartados. A biopolítica aqui é brutal e literal — trata-se de gerir a vida, moldá-la, impor limites ao desejo, à linguagem e ao movimento.

As criaturas híbridas são o ponto mais perturbador da narrativa justamente porque desmontam as categorias rígidas da modernidade. Elas existem num entre-lugar: não são plenamente animais, nem plenamente humanas aos olhos do poder. E é exatamente essa ambiguidade que legitima sua exploração. A lógica é conhecida: ao longo da história colonial, povos inteiros foram colocados nesse mesmo espaço de suspensão ontológica — nem totalmente humanos, nem totalmente bestiais — para que a violência contra eles pudesse ser naturalizada. Aqui, o romance dialoga diretamente com a ideia de colonialidade do poder, formulada pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano: uma estrutura que hierarquiza corpos e saberes a partir da raça, mesmo depois do fim formal do colonialismo.

Carlota, filha de Moreau, começa a história integrada a essa ordem. Ela é protegida, educada, moldada para ocupar um lugar específico dentro do sistema patriarcal e colonial. Sua formação lembra o que Simone de Beauvoir descreve como a construção social do feminino: Carlota não nasce submissa, ela é feita assim, treinada para não perguntar demais, para aceitar o mundo como ele se apresenta. Sua jornada, no entanto, é um processo de desnaturalização. Ao se aproximar das criaturas, ela começa a enxergar aquilo que o filósofo Emmanuel Levinas chamaria de o rosto do Outro — não um objeto de estudo, mas uma presença ética que interpela e exige responsabilidade.

Esse encontro com o Outro desestabiliza tudo. Porque, a partir dele, não é mais possível sustentar a neutralidade. Carlota percebe que a ciência do pai não é neutra, que o amor que sente por ele não o absolve, e que o mundo em que vive depende da exclusão violenta de outros corpos. O romance, nesse ponto, abandona qualquer ilusão de conciliação: não há como reformar esse sistema sem destruí-lo. A ética e o poder não coexistem pacificamente.

A Guerra das Castas, que atravessa o romance como um ruído constante, reforça essa leitura. O conflito histórico entre os povos maias e as elites brancas não aparece como pano de fundo distante, mas como expressão concreta daquilo que acontece em escala menor dentro da hacienda. A mesma lógica que justifica o controle dos híbridos justifica o massacre indígena: a ideia de que alguns corpos existem para servir e outros para governar. A violência colonial, aqui, não é exceção; é método.

O arco final de Carlota pode ser lido como um gesto profundamente político. Ao recusar o destino que lhe foi imposto — como filha, como mulher, como herdeira — ela rompe com a ontologia* colonial que organiza aquele mundo. Sua transformação não é fuga nem assimilação: é recusa. Uma recusa que lembra Frantz Fanon, psiquiatra e pensador da Martinica, quando afirma que, diante do colonialismo, a libertação não é um pedido de reconhecimento, mas a criação de um novo modo de existir.

Ao terminar o livro, fica claro que A Filha do Dr. Moreau não está interessada em monstros no sentido tradicional. O verdadeiro horror não está nos corpos híbridos, mas na racionalidade que os produz e legitima. A obra nos lembra que a modernidade, tão orgulhosa de sua ciência e de sua razão, sempre caminhou lado a lado com a barbárie — apenas vestida de linguagem elegante.

É uma leitura que incomoda porque desmonta a fantasia de que progresso e violência são opostos. Silvia mostra que, muitas vezes, eles são a mesma coisa dita em línguas diferentes. E, ao fazer isso, nos obriga a olhar para a pergunta que permanece aberta, pulsando depois da última página: quantas formas de Moreau ainda estruturam o nosso presente?


*Ontologia é o campo da filosofia que estuda o que existe e como os seres são definidos, ou seja, as ideias que organizam o que conta como real, humano ou possível em um mundo.


Referências Bibliográficas:

Foucault, Michel.
Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1979.
(Base conceitual para as noções de saber/poder, biopolítica e controle dos corpos.)

Mbembe, Achille.
Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
(Análise sobre como o poder moderno decide quais vidas são descartáveis, especialmente em contextos coloniais.)

Quijano, Aníbal.
Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
(Formulação central sobre hierarquias raciais e epistemológicas produzidas pelo colonialismo.)

Fanon, Frantz.
Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
(Reflexão sobre violência colonial, desumanização e descolonização como ruptura ontológica.)

Levinas, Emmanuel.
Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1988.
(Conceito ético do Outro como fundamento da responsabilidade.)

Beauvoir, Simone de.
O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
(Aporte para a leitura feminista da construção social da subjetividade feminina.)

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